sábado, 24 de novembro de 2012

Mistérios

A vida em geral e a existência em particular, o amor, a doença, o amor como doença e coisas assim. Mistérios. Para ser honesta, como agora se diz (não vão as pessoas partir do princípio de que somos todos uns grandessíssimos aldrabões), aviso já que só sei que nada sei — e, às vezes, nem isso.

Diziam antigamente que era melhor retirar o apêndice antes de se fazer uma grande travessia de barco. O vaivém das ondas faria, lá na ideia deles, com que o órgão, cheio de um não-sei-quê que hoje se pensa serem bactérias benéficas, daquelas que adoram iogurtes, acabasse por se romper e causar a malfadada peritonite, uma infecção intestinal grave que pode levar à morte quase tanto como a vida. Para a comunidade científica, o apêndice foi, até tempos recentes, um mistério irrisório. Um apêndice. Usava-se também despojar do apêndice uma pessoa que fosse submetida a uma cirurgia abdominal por outro motivo qualquer, só porque o caminho estava aberto, para prevenir futuras apendicites agudas, como quem diz, já que vais à rua deita o lixo fora e compra pão. Imagine-se tirar o coração a uma vítima de dores de amor, as cordas vocais a um desafinado, o cérebro a um deprimido. Está tudo ali ao lado.

Por estas e por outras, volta e meia penso no meu apêndice com certa melancolia. Quando o tempo muda, sinto um ligeiro desconforto, três ou quatro picadas insistentes que me lembram de que perdi um pedaço de mim, deitado ao lixo, provavelmente incinerado com outros bocados purulentos de outras pessoas, também elas incompletas. Quem perde um rim costuma ficar com outro, mas no que se trata do apêndice a perda é total e permanente. Não quero, no entanto, ser injusta para quem perdeu um rim. Bem sei que o esquerdo pode não suprir devidamente a falta do direito e vice-versa. Mas, quando se perde um rim, sabe-se bem o que se perde. A pessoa que perde o apêndice não sabe, sequer, o que está a perder.

Um apêndice pertence sempre a algo, isto é, não se chama apêndice a uma coisa cuja existência se justifica por si mesma. Se assim fosse, o apêndice chamar-se-ia outra coisa qualquer, como António ou José. No entanto, a verdade é que o apêndice existe tanto como aquilo a que pertence. Como nós, que mesmo pertencendo àqueles que amamos existimos para além deles, embora às vezes nos custe a percebê-lo. Um espelho nem sempre chega. Às vezes é preciso uma dor, aguda, para no-lo recordar.